[ARTIGO] Hiroshima e Nagasaki: crime de guerra ou necessidade militar? Um dilema ético 80 anos depois

Compartilhe:

Sidnei J. Munhoz 12/08/2025


Fo­to­grafia de Hi­roshima após o bom­bar­deio nu­clear. (Na­ti­onal Ar­chives Iden­ti­fier 22345671)

Oi­tenta anos atrás, no dia 6 de agosto de 1945, o Enola Gay so­bre­voou Hi­roshima em al­ti­tude má­xima. Às 08h16, lançou sobre a ci­dade uma arma de poder iné­dito. Pre­cisos 43 se­gundos de­pois, às 08h16­min43s, a bomba “Little Boy” (pe­queno ga­roto) de­tonou a 576 me­tros do solo. A ex­plosão nu­clear gerou ins­tan­ta­ne­a­mente um co­gu­melo co­lossal de fu­maça, que obli­terou a pai­sagem. Es­tima-se que, em um raio de cinco quilô­me­tros do epi­centro da ex­plosão, a de­vas­tação foi quase total. Em­bora os nú­meros exatos per­ma­neçam in­certos, cal­cula-se que cerca de 70 mil pes­soas mor­reram ins­tan­ta­ne­a­mente, e um nú­mero se­me­lhante pe­receu nos anos sub­se­quentes, ví­timas da ra­di­ação. Desde então, a ra­di­o­a­ti­vi­dade con­tinua a ceifar vidas e a pro­vocar al­te­ra­ções ge­né­ticas nos vi­ventes re­gião. Câncer, leu­cemia e de­for­ma­ções con­gê­nitas com­põem o le­gado de­vas­tador e per­sis­tente da­quele ataque. A que ponto a hu­ma­ni­dade havia che­gado?

O bom­bar­deio de Hi­roshima foi apenas o pre­lúdio da tra­gédia. Três dias após aquela car­ni­fi­cina, Na­ga­saki foi alvo de um ani­qui­la­mento si­milar. A des­truição foi igual­mente apo­ca­líp­tica e ceifou ime­di­a­ta­mente a vida de mais de 40 mil pes­soas. Os dois ata­ques nu­cle­ares so­mados oca­si­o­naram mais de 200 mil mortes, con­si­de­rando tanto os óbitos ime­di­atos quanto as ví­timas tar­dias da ra­di­ação. Essa ope­ração de guerra de­fla­grou um in­tenso de­bate sobre a ética do uso de armas nu­cle­ares, sobre a real ne­ces­si­dade dos bom­bar­deios e, no­ta­da­mente, sobre as mo­ti­va­ções para em­pregar tal arma contra um Japão já com­ba­lido.

Fo­to­grafia da Nuvem Atô­mica Ele­vando-se Sobre Na­ga­saki, Japão, 9 de agosto de 1945. Na­ti­onal Ar­chives, Re­cords of the Of­fice of War In­for­ma­tion. https://​visit.​arc​hive​s.​gov/​whats-​on/​explore-​exh​ibit​s/​atomic-​bombing-​hir​oshi​ma-​and-​nagasaki 

Como che­gamos a isso?

Em 2 de agosto de 1939, às vés­peras da Se­gunda Guerra Mun­dial, o fí­sico Al­bert Eins­tein es­creveu ao pre­si­dente dos EUA, Fran­klin D. Ro­o­se­velt, aler­tando-o sobre o pe­rigo de a Ale­manha de­sen­volver tec­no­logia nu­clear antes dos Es­tados Unidos. A ad­ver­tência de Eins­tein, cuja Te­oria da Re­la­ti­vi­dade de 1905 foi fun­da­mental para o de­sen­vol­vi­mento da fí­sica nu­clear, tinha um peso ine­gável. Essa questão ator­mentou o pa­ci­fista Eins­tein pelo resto de sua vida. Em­bora já exis­tissem es­forços em an­da­mento, a carta de Eins­tein re­sultou no au­mento sig­ni­fi­ca­tivo dos re­cursos des­ti­nados à pes­quisa nu­clear.

Em 1942, o Exér­cito dos EUA criou o Dis­trito de En­ge­nharia de Ma­nhattan, co­nhe­cido como “Pro­jeto Ma­nhattan”, que re­sultou na cri­ação do pri­meiro dis­po­si­tivo nu­clear. Li­de­rado pelo ge­neral Leslie Groves e com a di­reção ci­en­tí­fica de Ju­lius Ro­bert Op­pe­nheimer, o pro­jeto mo­bi­lizou cen­tenas de pes­qui­sa­dores, mi­lhares de tra­ba­lha­dores e re­cursos vul­tosos.

Con­texto ge­o­po­lí­tico global ao final do con­flito mun­dial

Ao tér­mino da Se­gunda Guerra Mun­dial, os Es­tados Unidos e a União So­vié­tica con­so­li­daram-se como as prin­ci­pais po­tên­cias glo­bais. Con­tudo, é im­por­tante com­pre­ender como a si­tu­ação desses países era com­ple­ta­mente di­versa. Os EUA eram, de longe, os mai­ores cre­dores e a maior força econô­mica do mundo e res­pon­diam por quase dois terços da pro­dução in­dus­trial global. Em pa­ra­lelo, a União So­vié­tica havia per­dido entre 28 e 30 mi­lhões de ha­bi­tantes e a sua eco­nomia e a in­fra­es­tru­tura es­tavam com­ple­ta­mente des­truídas. À época, a URSS ca­mu­flava as suas es­ta­tís­ticas po­pu­la­ci­o­nais para não re­velar a real di­mensão das suas fra­gi­li­dades. Assim, en­quanto os EUA emer­giram como uma po­tência co­lossal e so­be­rana, a URSS des­pon­tava como uma con­tra­parte também vi­to­riosa, mas de­bi­li­tada e de­vas­tada pela guerra (Mu­nhoz, 2004, 2020; Mu­nhoz e Lara, 2025).

Apesar de sua fra­gi­li­dade mo­men­tânea de­vido ao seu co­lossal es­forço de guerra, a União So­vié­tica es­ta­be­leceu uma vasta es­fera de in­fluência no Leste e Centro da Eu­ropa, o que tornou o seu con­sen­ti­mento in­dis­pen­sável a qual­quer mu­dança na re­gião. Essa in­fluência, man­tida pelo con­trole do Exér­cito Ver­melho na re­gião, após se­gui­da­mente der­rotar as forças do Eixo em di­fe­rentes ba­ta­lhas, foi am­pla­mente ne­go­ciada na Con­fe­rência de Ialta, em fe­ve­reiro de 1945. Pa­ra­le­la­mente, os EUA, após a re­or­ga­ni­zação de suas tropas e o recuo das forças do Eixo para o front ori­ental, avan­çaram ra­pi­da­mente e ocu­param áreas es­tra­té­gicas no co­ração da Ale­manha, in­clu­sive al­gumas pre­vi­a­mente des­ti­nadas aos so­vié­ticos. Além disso, o de­sen­vol­vi­mento da tec­no­logia nu­clear elevou ex­po­nen­ci­al­mente o po­derio es­ta­du­ni­dense, o que ali­mentou as suas am­bi­ções e acirrou as ten­sões com a URSS. A ali­ança entre o ca­pi­ta­lismo li­beral e o es­ta­li­nismo so­vié­tico co­me­çava a ruir.

Com o fim do con­flito a se apro­ximar, di­ver­gên­cias in­ternas no go­verno es­ta­du­ni­dense sobre as po­lí­ticas para o pós-guerra se in­ten­si­fi­caram. Al­guns as­ses­sores acre­di­tavam que os EUA ha­viam feito con­ces­sões ex­ces­sivas à União So­vié­tica. A morte de Ro­o­se­velt, em 12 de abril de 1945, for­ta­leceu essa visão no De­par­ta­mento de Es­tado, e re­sultou em uma mu­dança na abor­dagem em re­lação aos so­vié­ticos: de um acordo ne­go­ciado para uma es­tra­tégia de im­po­si­ções uni­la­te­rais e de “fatos con­su­mados”.

Na Con­fe­rência de Potsdam, re­a­li­zada entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, os con­flitos entre os ali­ados anglo-ame­ri­canos e os so­vié­ticos se tor­naram ainda mais evi­dentes. Na­quele ce­nário, a po­lí­tica de Washington não foi li­near. Ini­ci­al­mente, Truman adotou uma pos­tura in­fle­xível a ponto de romper com os pro­to­colos di­plo­má­ticos. Aler­tado por Stimson de que a es­ta­bi­li­dade na Eu­ropa de­pendia de ne­go­ci­a­ções com os so­vié­ticos, Truman ate­nuou sua pos­tura. No en­tanto, a “di­plo­macia atô­mica”, es­tra­tégia de in­ti­mi­dação ba­seada no poder nu­clear, que Stimson de­fen­dera a prin­cípio, acabou por do­minar as re­la­ções com a URSS (Al­pe­ro­vitz, 1995).

Os bom­bar­deios nu­cle­ares e o novo con­flito in­ter­na­ci­onal

Os bom­bar­deios nu­cle­ares a Hi­roshima e a Na­ga­saki, jun­ta­mente com a in­vasão so­vié­tica à Man­chúria, for­çaram a ren­dição in­con­di­ci­onal do Japão. Na es­teira dos his­to­ri­a­dores re­vi­si­o­nistas e de ou­tros crí­ticos das pers­pec­tivas or­to­doxa e neo-or­to­doxa, ar­gu­mento que o uso das bombas atô­micas não era es­tri­ta­mente ne­ces­sário para en­cerrar a Guerra do Pa­cí­fico. No en­tanto, em Washington, o ob­je­tivo era con­cluir o con­flito antes que a União So­vié­tica in­ten­si­fi­casse a sua par­ti­ci­pação na guerra contra o Japão, pois assim seria evi­tada uma pos­sível di­visão de áreas de in­fluência na re­gião. É im­por­tante lem­brar que, pelos acordos fir­mados, a União So­vié­tica de­veria de­clarar guerra ao Japão 90 dias após o fim da guerra na Eu­ropa, o que de fato ocorreu, quando as forças so­vié­ticas cru­zaram a fron­teira da Man­chúria, na ma­dru­gada de 8 para 9 de agosto, e im­pu­seram uma fra­go­rosa der­rota aos com­ba­tentes ja­po­neses.

A aná­lise da Guerra no Ex­tremo Ori­ente re­vela as com­ple­xi­dades e os di­lemas en­fren­tados pelos EUA e pela União So­vié­tica ao final da Se­gunda Guerra Mun­dial. Nos EUA, o go­verno temia o des­gaste po­lí­tico de­cor­rente do pro­lon­ga­mento do con­flito com o Japão e das pe­sadas baixas es­ti­madas para a even­tual in­vasão das ilhas nipô­nicas. Em pa­ra­lelo, ao final do con­flito, a opi­nião pú­blica, que fora vi­go­ro­sa­mente in­flu­en­ciada pelas cam­pa­nhas pu­bli­ci­tá­rias do go­verno, de­man­dava dos seus lí­deres a im­po­sição da der­rota total e a exi­gência de ren­dição in­con­di­ci­onal do Japão. Ao mesmo tempo, cada vez mais, essa opi­nião pú­blica era sen­si­bi­li­zada pelas baixas dos jo­vens com­ba­tentes es­ta­du­ni­denses.

Du­rante a guerra, nos EUA, as cam­pa­nhas pu­bli­ci­tá­rias go­ver­na­men­tais e pri­vadas ha­viam ado­tado pos­turas ra­cistas em re­lação aos ja­po­neses. Na­quele con­texto, houve a in­ten­si­fi­cação da re­pressão contra os nipo-ame­ri­canos in­ter­nados em campos de con­cen­tração (BESS, 2006). As cam­pa­nhas de ar­re­ca­dação de fundos para o es­forço de guerra ex­plo­raram a vi­lania do ini­migo e o pa­tri­o­tismo dos es­ta­du­ni­denses. Nelas foram pro­du­zidos pôs­teres, de­se­nhos ani­mados e filmes que fre­quen­te­mente as­so­ci­avam ja­po­neses a ani­mais e en­fa­ti­zavam a in­fe­ri­o­ri­dade bi­o­ló­gica dos “japs” (Blum, 1976; Lin­geman, 2003; Kimble, 2006).

Em con­so­nância com esse con­texto, os lí­deres es­ta­du­ni­denses bus­cavam um ca­minho para a vi­tória com o menor custo de vidas pos­sível, o que levou Ro­o­se­velt a en­volver a União So­vié­tica na Guerra do Pa­cí­fico. A de­cisão de Stalin de par­ti­cipar do con­flito no Ex­tremo Ori­ente es­tava re­la­ci­o­nada à busca por um papel de po­tência global para a União So­vié­tica na nova ordem mun­dial, que se en­con­trava em pro­cesso de edi­fi­cação.

Nas ne­go­ci­a­ções em Ialta, Stalin, ini­ci­al­mente, in­dicou a ne­ces­si­dade de seis meses após o fim da guerra na Eu­ropa para que as forças so­vié­ticas pu­dessem com­bater no Ex­tremo Ori­ente, mas, pos­te­ri­or­mente, con­cordou em de­clarar guerra ao Japão três meses após o tér­mino do con­flito eu­ropeu. Stalin jus­ti­ficou a de­mora de­vido às de­mandas do con­flito na Eu­ropa e à mag­ni­tude da ope­ração de des­lo­ca­mento das forças para o Ori­ente.

Com o in­tuito de evitar uma guerra em duas frentes, a URSS havia es­ta­be­le­cido um pacto de não agressão com o Japão. No en­tanto, Stalin de­nun­ciou esse pacto em abril de 1945, sob o pre­texto de que o Japão era aliado da Ale­manha. Em­bora do­cu­mentos in­ternos do go­verno ja­ponês in­di­cassem pre­o­cu­pação com uma pos­sível de­cla­ração de guerra so­vié­tica, os ja­po­neses não in­ter­pre­taram cor­re­ta­mente os mo­vi­mentos po­lí­ticos em Moscou e con­ti­nu­aram a vis­lum­brar um acordo com o Kremlin (Mu­nhoz, 2020).

A in­te­li­gência dos EUA, por meio da in­ter­cep­tação de men­sa­gens do em­bai­xador ja­ponês em Moscou, con­firmou a pre­o­cu­pação ja­po­nesa com o des­lo­ca­mento de tropas so­vié­ticas para o Ori­ente. Os EUA man­ti­veram acesso a essas in­for­ma­ções porque o ser­viço de in­te­li­gência ja­ponês des­co­nhecia que o “Có­digo Purple” havia sido que­brado. As men­sa­gens in­ter­cep­tadas re­ve­lavam a apre­ensão do mi­nistro das Re­la­ções Ex­te­ri­ores, Shi­ge­nori Togo, em re­lação a um pos­sível in­gresso da URSS na guerra (Al­pe­ro­vitz, 1995).

A Di­visão de In­te­li­gência do De­par­ta­mento de Guerra dos EUA, em sua aná­lise da si­tu­ação ini­miga, in­dicou que muitos ja­po­neses con­si­de­ravam a der­rota como pro­vável e que a en­trada da União So­vié­tica na guerra po­deria con­vencê-los da ine­vi­ta­bi­li­dade da der­rota (Al­pe­ro­vitz, 1995).

Stalin cum­priu o acor­dado com os Ali­ados ao or­denar a in­vasão da Man­chúria em agosto de 1945. A re­gião, ocu­pada pelo Japão desde 1931, era de­fen­dida por 1.200.000 sol­dados. As forças so­vié­ticas, com­postas por 1.577.725 sol­dados dis­tri­buídos em 89 di­vi­sões, con­quis­taram a Man­chúria em apro­xi­ma­da­mente uma se­mana. A Ba­talha da Man­chúria, apesar de ser uma das ba­ta­lhas es­que­cidas da Se­gunda Guerra Mun­dial, foi uma das cam­pa­nhas bé­licas mais ar­ro­jadas e vi­to­ri­osas da his­tória (Glantz, 1983, 2003).

Na Man­chúria, a de­sor­ga­ni­zação da re­sis­tência ja­po­nesa pos­si­vel­mente foi in­flu­en­ciada pelo fato de os sol­dados não es­tarem a de­fender di­re­ta­mente a di­vin­dade do im­pe­rador e a terra sacra. A es­tra­tégia, a ra­pidez e a vi­o­lência da ope­ração so­vié­tica também con­tri­buíram para o seu su­cesso (Mu­nhoz, 2020).

Após os testes nu­cle­ares em Ala­mo­gordo, no Novo Mé­xico, re­a­li­zados em 16 de julho de 1945, Truman ini­ciou o pro­cesso de ex­clusão dos so­vié­ticos na par­ti­ci­pação da cons­trução de uma nova ordem no Ex­tremo Ori­ente. Com os bom­bar­deios a Hi­roshima e a Na­ga­saki, Truman pro­curou de­finir a guerra antes que os so­vié­ticos con­quis­tassem maior par­ti­ci­pação na­quele te­atro de ope­ra­ções. Pos­te­ri­or­mente, re­cusou a so­li­ci­tação de Stalin re­la­tiva à par­ti­ci­pação da URSS na ren­dição ja­po­nesa e pres­si­onou os so­vié­ticos em re­lação às ilhas Cu­rilas (Pe­chatnov, 2010).

Há di­fe­rentes in­ter­pre­ta­ções sobre as mo­ti­va­ções por trás dos bom­bar­deios. A cor­rente or­to­doxa e os neo-or­to­doxos de­fendem que foram um úl­timo re­curso para ter­minar a guerra e salvar vidas (Maddox, 2007). Já os his­to­ri­a­dores re­vi­si­o­nistas ar­gu­mentam que a bomba foi usada para exercer chan­tagem nu­clear sobre os so­vié­ticos e li­mitar as suas am­bi­ções tanto na Eu­ropa quanto na Ásia (Al­pe­ro­vitz, 1995).

Al­pe­ro­vitz as­socia a mu­dança na po­lí­tica de Truman, em re­lação à URSS, ao de­sen­vol­vi­mento das armas nu­cle­ares. Truman buscou mar­gi­na­lizar a in­fluência so­vié­tica e evitar um pos­sível ataque do Exér­cito Ver­melho ao Japão. Se­gundo o his­to­ri­ador, di­versos mi­li­tares es­ta­du­ni­denses de alta pa­tente ex­pres­saram a sua opo­sição ao bom­bar­deio nu­clear, in­cluindo os ge­ne­rais Ge­orge C. Marshall, Dwight Ei­se­nhower e Dou­glas Ma­cArthur, os al­mi­rantes Ernst J. King e Chester W. Ni­mitz, e o ge­neral Henry Harley “Hap” Ar­nold (Al­pe­ro­vitz, 1995).

A aná­lise de Al­pe­ro­vitz leva à con­clusão de que o em­prego da bomba atô­mica foi des­ne­ces­sário e po­deria ser evi­tado se os EUA hou­vessem criado as con­di­ções mí­nimas para uma ren­dição acei­tável por parte do go­verno ja­ponês. A de­cisão teve um forte com­po­nente po­lí­tico, as­so­ciado à in­tenção de de­mons­trar o poder da nova arma ao Kremlin e de re­duzir a in­fluência da União So­vié­tica na nova ordem mun­dial (Al­pe­ro­vitz, 1995).

Tsuyoshi Ha­se­gawa, em uma aná­lise ins­ti­gante e pro­vo­ca­tiva, ar­gu­menta que a in­vasão so­vié­tica da Man­chúria teve um im­pacto maior na de­cisão dos go­ver­nantes ja­po­neses de aceitar os termos de ren­dição de­fi­nidos em Potsdam do que os bom­bar­deios nu­cle­ares. Se­gundo Ha­se­gawa, sem a in­vasão so­vié­tica, os EUA en­fren­ta­riam o di­lema de lançar não duas, mas pos­si­vel­mente três ou mais bombas até a ren­dição ja­po­nesa (Ha­se­gawa, 2005).

Os his­to­ri­a­dores or­to­doxos e neo-or­to­doxos tendem a jus­ti­ficar o em­prego das armas nu­cle­ares an­co­rados na ale­gação de que os ja­po­neses se re­cu­savam a aceitar os termos de ren­dição im­postos pelos ali­ados na de­cla­ração de Potsdam (Maddox, 2007). Em con­tra­par­tida, his­to­ri­a­dores re­vi­si­o­nistas cri­ticam essa pers­pec­tiva e ar­gu­mentam que os ja­po­neses bus­caram a in­ter­me­di­ação so­vié­tica para obter me­lhores termos de ren­dição. Acres­centam que as ava­li­a­ções do pró­prio co­mando de guerra dos EUA ha­viam mu­dado sig­ni­fi­ca­ti­va­mente nos dias que an­te­ce­deram o ataque nu­clear (Al­pe­ro­vitz, 1995).

Mi­chael Bess, ana­lisa doze ques­tões re­la­ci­o­nadas ao final da Guerra do Pa­cí­fico e aos bom­bar­deios de Hi­roshima e Na­ga­saki. O autor ques­tiona a ne­ces­si­dade dos bom­bar­deios nu­cle­ares para al­cançar a ren­dição ja­po­nesa, pois en­tende que os Ali­ados já es­tavam a ca­minho de der­rotar o Japão com ou sem a bomba (Bess, 2006).

Bess res­salta que a Ope­ração Olympic, com um de­sem­barque em massa, já es­tava pla­ne­jada para no­vembro da­quele ano. Ele en­fa­tiza que seria uma dis­torção his­tó­rica con­si­derar a si­tu­ação como clara e inequí­voca, pois o mo­mento era de grande con­fusão e mu­danças diá­rias (Bess, 2006).

Bess cri­tica os bom­bar­deios nu­cle­ares e cen­sura a au­sência de uma ad­ver­tência dos EUA ao go­verno ja­ponês sobre as con­sequên­cias da re­cusa à ren­dição. Do ponto de vista ético, Bess di­fe­rencia as fa­ta­li­dades em com­bate da­quelas re­sul­tantes da ani­qui­lação de ci­dades in­teiras por uma única arma (Bess, 2006).

Bess ar­gu­menta que, mesmo se o bom­bar­deio de Hi­roshima pu­desse ser con­si­de­rado jus­ti­fi­cável, a des­truição de Na­ga­saki foi pre­ci­pi­tada e des­ne­ces­sária. Ele con­clui que se cons­truiu um mito de que as bombas atô­micas foram usadas apenas para salvar vidas.

As con­clu­sões de Bess são em grande parte ba­se­adas no tra­balho de Ha­se­gawa, já ci­tado an­te­ri­or­mente. Bess ad­verte que não se pode in­ferir da aná­lise de Ha­se­gawa que o prin­cipal ob­je­tivo do uso das bombas atô­micas era evitar a en­trada da URSS na Guerra do Pa­cí­fico. Esse é um ponto cen­tral de di­ver­gência entre as po­si­ções dos re­vi­si­o­nistas, Ha­se­gawa e Bess.

Nesse de­bate, de um lado, tanto his­to­ri­a­dores or­to­doxos quanto Mi­chael Bess ar­gu­mentam que os bom­bar­deios nu­cle­ares sal­varam mi­lhares de vidas. Por outro, tanto Tsuyoshi Ha­se­gawa quanto Bess com­par­ti­lham com os re­vi­si­o­nistas as crí­ticas ao uso dos bom­bar­deios, em­bora com nu­ances que dis­tin­guem os seus po­si­ci­o­na­mentos.

É im­por­tante con­si­derar a pos­si­bi­li­dade da in­ter­venção do im­pe­rador, como ocorreu de fato, quando ele ava­liou que a con­ti­nui­dade da guerra le­varia à com­pleta des­truição do Japão. Acre­dito ser plau­sível que, no início de agosto de 1945, além dos mo­de­rados, o pró­prio im­pe­rador bus­casse al­guma forma de ne­go­ci­ação que evi­tasse a ruína do im­pério (Mu­nhoz; Lara, 2025).

Por fim, des­taco a crí­tica do his­to­ri­ador ja­ponês Ta­dashi Saito, que ob­ser­vava, ainda ao final do sé­culo 20, uma pos­tura hi­pó­crita dos go­vernos ja­po­neses, que per­sis­tiam em não re­co­nhecer as suas res­pon­sa­bi­li­dades pelas atro­ci­dades co­me­tidas por suas tropas, prin­ci­pal­mente na cha­mada Es­fera de Co-pros­pe­ri­dade da Grande Ásia Ori­ental (Saito, 1999-2000). Para Saito, as­sumir essa res­pon­sa­bi­li­dade é fun­da­mental para que o Japão possa de­nun­ciar os EUA em tri­bu­nais in­ter­na­ci­o­nais por crime de guerra de­vido ao uso de armas de des­truição em massa.

Re­fe­rên­cias

AL­PE­RO­VITZ, Gar. The de­ci­sion to use the atomic bomb and the ar­chi­tec­ture of an Ame­rican myth. New York: Knopf, 1995.
BESS, Mi­chael. Choices under fire. Moral di­men­sions of World War II. New York: Vin­tage Books, 2006.
BLUM, John. M. V was for vic­tory: po­li­tics and Ame­rican cul­ture du­ring World War II. New York: Har­court Brace Jo­va­no­vich, 1976.
GLANTZ, David. M. Au­gust storm: the So­viet 1945 stra­tegic of­fen­sive in Man­churia. Combat Stu­dies Ins­ti­tute. U.S. Army Com­mand and Ge­neral Staff Col­lege. Fort Le­a­venworth, Kansas. 1983. Dis­po­nível em: https://​www.​arm​yupr​ess.​army.​mil/​Portals/​7/​combat-​studies-​ins​titu​te/​csi-​books/​Glantz-​lp7.​pdf. Acesso: 07 mar. 2025.
GLANTZ, David. M. So­viet ope­ra­ti­onal and tac­tical combat in Man­churia, 1945: “Au­gust Storm”. London: Frank Cass, 2003.
HA­SE­GAWA, Tsuyoshi. Ra­cing the enemy: Stalin, Truman, and the sur­render of Japan. Cam­bridge (Mass): The Belknap Press of Har­vard Uni­ver­sity Press, 2005.
KIMBLE, James J. Mo­bi­li­zing the home front: war bonds and do­mestic pro­pa­ganda. Col­lege Sta­tion: Texas A&M Uni­ver­sity Press, 2006.
LIN­GEMAN, Ri­chard. Don’t you know there’s a war on? The Ame­rican home front 1941-1945. New York: Thunder’s Mouth Press, 2003.
MADDOX, Ro­bert J. Hi­roshima in His­tory: the myths of Re­vi­si­o­nism. Co­lumbia: Uni­ver­sity of Mis­souri Press, 2007.
MU­NHOZ, Sidnei J. Guerra Fria: um de­bate in­ter­pre­ta­tivo. In: TEI­XEIRA DA SILVA, Fran­cisco Carlos. O sé­culo som­brio. Rio de Ja­neiro: El­se­vier/Campus, 2004, p. 261-281.
MU­NHOZ, Sidnei J. Guerra Fria: his­tória e his­to­ri­o­grafia. Cu­ri­tiba: Ap­pris, 2020.
MU­NHOZ, Sidnei J; LARA, José Victor de. A Guerra Fria. Ma­ringá: Eduem, 2025.
PE­CHATNOV, Vla­dimir. The So­viet Union and the World, 1944–1953. In: LEF­FLER, Melvyn; WESTAD, Odd Arne (ed.). The Cam­bridge his­tory of the Cold War. New York: Cam­bridge Uni­ver­sity Press, 2010. p. 90-111. v. 1.
SAITO. Ta­kashi. Cur­rent views of World War II in Japan. Bul­letin du Co­mité In­ter­na­ti­onal d’his­toire de la Deuxième Guerre Mon­diale, Paris: Ins­titut d’his­toire du temps pré­sent (CNRS), n. 30-31, p. 153-160, 1999-2000.

O pre­sente ar­tigo re­sulta em grande me­dida de re­fle­xões de­sen­vol­vidas em dois li­vros, um de minha au­toria e outro es­crito em par­ceria com José Victor de Lara. MU­NHOZ, Sidnei J. Guerra Fria: his­tória e his­to­ri­o­grafia. Cu­ri­tiba: Ap­pris, 2020 e MU­NHOZ, Sidnei J ; LARA, José Victor de. A Guerra Fria. Ma­ringá: Eduem, 2025. Assim, será pos­sível en­con­trar nestas obras o de­ta­lha­mento e uma aná­lise mais densa dos con­teúdos aqui apre­sen­tados.

CORREIO DA CIDADANIA

Outras Notícias

Domínio Global Consultoria Web